Uma boa parte do desenvolvimento de São Paulo aconteceu ao longo dos antigos caminhos de ligação com o interior e o litoral. A partir dos século 19, acompanhou também as linhas e estações ferroviárias.

Apesar do estabelecimento de propriedades agrícolas e locais de mineração de ouro já no século 16, a região de Pirituba, Anhanguera, Perus, São Domingos e Jaraguá se urbanizou somente a partir do século 19 com a implantação da primeira linha ferroviária no estado, a antiga São Paulo Railway (atualmente a linha 7-Rubi da CPTM), e no século 20 com a chegada de indústrias importantes, como a Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus S. A. e o Frigorífico Armour.

Ponte ferroviária sobre rio Tietê, ainda não totalmente retificado/Ivo Justino, 1970/Acervo PMSP

A região, próxima da Serra da Cantareira, é rica em parques e é a segunda maior área verde de São Paulo (o distrito de Parelheiros fica em primeiro lugar). Há referências e achados arqueológicos que indicam a presença de grupos humanos nessa área, antes da chegada dos portugueses. Desde meados do século 20, duas aldeias guaranis se localizam no Parque Estadual do Jaraguá. O Parque foi considerado, pela Unesco, em 1994, como núcleo que integra a Reserva de Biosfera da Mata Atlântica, em São Paulo. Além do próprio Pico do Jaraguá — o ponto mais alto da cidade com 1.135 metros de altura —, há remanescentes da Mata Atlântica e uma casa que pertenceu ao bandeirante Afonso Sardinha.

Pico do Jaraguá/Cecilia Laskiewicz, 2004/ Acervo PMSP

Outro importante parque na região é o Parque Anhanguera, um dos maiores da cidade, que se originou da fazenda de reflorestamento Santa Fé. Esse parque é cortado por trecho remanescente da antiga Ferrovia Perus-Pirapora, que transportava o minério extraído em Cajamar até a Fábrica de Cimento Portland, em Perus, próxima à antiga ferrovia São Paulo Railway.

Por muito tempo a região foi ocupada por fazendas de café e plantações de cana-de-açúcar. Da grande propriedade do Coronel Anastácio de Freitas Trancoso, do início do século 19, surgiram os loteamentos que originaram os bairros de Pirituba e São Domingos.  A Fazenda do Anastácio, como ficou conhecida, foi adquirida na primeira metade do século 19 pelo Brigadeiro Tobias de Aguiar e sua esposa, Maria Domitila de Castro, a Marquesa de Santos.  Em 1917, os herdeiros do casal venderam essa fazenda para o Frigorífico Armour do Brasil, que construiu uma grande unidade produtiva, próxima ao rio Tietê. Na segunda metade do século 20 parte dessas terras foi adquirida e urbanizada pela Companhia City.

Quem passa pela marginal Tietê, próximo ao acesso à rodovia Anhanguera, observa uma grande e abandonada edificação em estilo hispânico conhecida como Casarão do Anastácio. Apesar do nome, o coronel nunca residiu neste edifício, construído em 1920 para abrigar uma hospedaria para funcionários da Companhia Armour. O nome se deve, na verdade, ao fato desse casarão ter sido construído no lugar onde antes ficava a casa-sede da antiga fazenda que pertenceu ao Coronel Anastácio.

Durante o século 20, a região foi destino de indústrias. No início, elas se instalaram nas proximidades da ferrovia e, depois, ao longo das rodovias Anhanguera e Bandeirantes. O estabelecimento destas indústrias foi fundamental para o desenvolvimento da região, pois com elas se formaram vilas e bairros.

Dentre elas, destaca-se o papel histórico da Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus S.A., a primeira fábrica de cimento do Brasil, que deu origem ao bairro de Perus, e que abrigou uma importante e longa mobilização de seus operários por melhores condições de trabalho e por qualidade ambiental, isso ainda na década de 1960. A fábrica e seu entorno constituem, de acordo com o Plano Diretor da cidade, um Território de Interesse da Cultura e da Paisagem (TICP), o que significa que, nestes locais, estão elementos importantes para a memória e identidade da cidade. Próxima à fábrica está o Cemitério de Perus, onde foram descobertas ossadas de vítimas da ditadura militar.

Prédios da Fábrica de Cimento de Perus, Vila Inácio/Humberto do Lago Müller

Outro patrimônio relacionado às indústrias da área é a Sociedade Holandesa de São Paulo Casa de Nassau, que abrigou um clube de campo vinculado aos imigrantes holandeses na cidade. Este imóvel vincula-se ao processo de ocupação do bairro e à presença de imigrantes ingleses e holandeses que trabalharam na ferrovia e nas indústrias de Pirituba.  

Há também em Pirituba a Vila Inglesa, local de moradia dos funcionários da São Paulo Railway. Lá fica o Castelinho de Pirituba, antiga residência de Charles Thomas Chapman, funcionário dessa ferrovia. É uma construção de alvenaria de tijolos de barro de meados da década de 1930, e inspirada na arquitetura rural inglesa oitocentista. Hoje faz parte de um condomínio com dois altos edifícios residenciais, próximo à avenida Raimundo Pereira de Magalhães, a antiga estrada velha de Campinas.

A Vila Jaguara é outro bairro da região que teve seu desenvolvimento ligado ao surto industrial. No entanto, diferente dos outros, este bairro teve a rodovia como elemento propulsor de crescimento. A ocupação da área aconteceu a partir da década de 1920, quando Antônio Pinheiro de Ulhoa Cintra e Henrique Beaurrepaire lotearam parte do sítio Gama. Inicialmente o bairro foi ocupado por trabalhadores das indústrias, como a Armour, localizadas em Pirituba e São Domingos.

Apesar da presença de grandes indústrias, a região de Pirituba foi praticamente esquecida por décadas. Não havia estrutura básica, como água encanada, ruas asfaltadas e rede de saneamento básico, na maioria das ruas e residências. Indignados, os moradores realizaram, nos anos 1960, um plebiscito para a emancipação do bairro. Apesar de não terem alcançado a quantidade necessária de votos, a mobilização resultou em investimentos na região.

 

 

Norte 1 – Anhanguera, Perus, Jaraguá, Pirituba, São Domingos e Jaguara