O Ipiranga, por onde passava o antigo Caminho de Santos, é um dos bairros com origem mais antiga da cidade de São Paulo. Era uma espécie de pouso onde tropeiros e caminhantes paravam antes de prosseguirem seu caminho entre Santos e São Paulo. Mas seu desenvolvimento como bairro foi impulsionado com a construção do edifício-monumento conhecido como Museu do Ipiranga e as obras de urbanização que acompanharam seu projeto.

No final do século 19, o Ipiranga já possuía indústrias e, no século seguinte, elas se expandiram ainda mais devido à linha férrea Santos-Jundiaí que cruzava o bairro. Em menos de trinta anos, lá já se empregavam cerca de sete mil operários, distribuídos entre dezenove fábricas. Com tamanho crescimento foram construídas desde moradias para trabalhadores até palacetes de famílias abastadas, como as residências da família Jafet. De origem libanesa, a família possuía tecelagem no bairro e palacetes nas ruas Bom Pastor e Costa Aguiar. Os edifícios desta época são representantes do ecletismo, com influência do neoclássico e detalhes mouriscos.

Residência da Família Jafet/L. Santana de Lemos

O vizinho Sacomã também teve sua urbanização impulsionada pela indústria. Por volta de 1890, os irmãos franceses Sacoman fixaram-se no lugar e constituíram uma fábrica de telhas francesas, cujas atividades iniciaram-se em 1910. Associado aos irmãos Falchi —personagens da fundação da Vila Prudente—, foram expoentes da olaria paulistana.

Parte dos operários que trabalhavam no Ipiranga e no Sacomã escolheram a área da antiga fazenda do capitão André Cursino para morar. Essa fazenda foi parcelada no final do século 19 e originou o distrito do Cursino, onde se localiza o bairro do Jardim da Saúde, projetado pelo engenheiro-urbanista Jorge de Macedo Vieira. No distrito ficam o Jardim Zoológico de São Paulo e o Zoo Safari (antigo Simba Safari).

Por esta região passava o caminho de Santos, um dos mais antigos da cidade, que aproveitou trilhas indígenas para vencer a Serra do Mar e possibilitou o acesso dos portugueses ao planalto de Piratininga. Até hoje há resquícios desse caminho, como um marco quilométrico próximo ao número 375 da rua Silva Bueno (antiga Estrada nº 3). No trecho que corresponde ao Cambuci, havia o córrego do Lavapés (canalizado sob a rua de mesmo nome), assim nomeado porque nele os viajantes limpavam os pés enlameados da subida da serra e seus animais bebiam água. O trecho final do caminho de Santos em São Paulo é marcado por uma árvore conhecida como figueira das lágrimas, que marca o local onde os viajantes se despediam dos familiares antes de seguir viagem para o litoral.

Árvore das Lágrimas/Autor desconhecido, 1912

Ao longo do caminho de Santos se formaram povoações, entre elas a da região conhecida hoje como Cambuci. Durante o período colonial a paisagem da área era composta por chácaras e pousos para viajantes. No final do século 19 a antiga Chácara da Glória foi loteada e houve a construção da Capela Nossa Senhora de Lourdes, origem da atual Igreja da Glória.

Com a crescente urbanização e a forte imigração houve a necessidade de investir em educação e assistência a crianças abandonadas. Até então as ordens religiosas eram responsáveis por prestar esses serviços.

No Ipiranga essas escolas impulsionaram a ocupação do bairro e a abertura da avenida Nazaré, uma das principais vias do bairro. Grande parte delas está em terrenos doados pelo conde José Vicente de Azevedo e em edifícios de arquitetura ecléticas com inspirações no neoclássico. Por exemplo, o Internato Nossa Senhora Auxiliadora (1903), o Educandário Sagrada Família (1903) e o Instituto Cristóvão Colombo (1930). Os dois primeiros são projetos do escritório Ramos de Azevedo.

Ramos de Azevedo foi um arquiteto com obra extensa e marcante em São Paulo. Seu escritório projetou e construiu desde residências até grandes edifícios institucionais. No Ipiranga, além das instituições citadas, há outras obras do escritório, como o Grupo Escolar São José, de 1926, e os edifícios que abrigariam o Juvenato Santíssimo Sacramento, de 1929. O antigo Noviciado Nossa Senhora das Graças Irmãs Salesianas (1920), o Colégio São Francisco Xavier (1932) e as antigas edificações do Seminário Central da Imaculada Conceição são obras de outros arquitetos, mas também representam a arquitetura eclética predominante neste conjunto de instituições assistenciais e de ensino.

Antigo Noviciado Nossa Senhora das Graças, Irmãs Salesianas/Guia de Bens Culturais

 

Retificação de riacho no Parque da Independência/Becherini, 1910-1920

O Ipiranga é conhecido como cenário da proclamação da Independência do Brasil. Em 1895 foi inaugurado o Museu Paulista, um edifício neoclássico projetado pelo italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi e construído por Luigi Pucci. Nos fundos do Museu há um bosque com fauna e flora heterogênea e que conserva espécies atualmente em processo de extinção, como as árvores cabreúva, grumixama e palmito-juçara. O Parque da Independência compõe a área envoltória do museu e lá fica o Monumento à Independência, de 1926. No interior do parque há também a Casa do Grito, cujo primeiro registro é de 1844, de estrutura de taipa de mão e composição de uma casa rural convencional. O Monumento à Independência e a Casa do Grito integram o acervo do Museu da Cidade de São Paulo.

Casa do Grito em 1973/Edison Pacheco Aquino

Pode-se dizer que o bairro da Aclimação surgiu a partir da constituição de um parque onde antes havia o Sítio Tapanhoim. Em 1892, o médico e político Carlos Botelho, dono daquelas terras, instalou ali o primeiro zoológico paulistano e o primeiro posto zootécnico do país. A área foi vendida em 1939 para a Prefeitura, que implantou lá o Parque da Aclimação. Diferente de outros bairros que se desenvolveram no entorno de igrejas, a Igreja da Aclimação foi inaugurada em 1940, quando a região já se encontrava urbanizada.

 

Sul 1 – Ipiranga, Cambuci (inclui o bairro Aclimação), Sacomã e Cursino