Localizados em torno de Santo Amaro, uma série de bairros —Grajaú, Cidade Dutra, Socorro, Jardim São Luís, Jardim Ângela, Capão Redondo e Campo Limpo— passaram, em pouco tempo, de antigas áreas rurais, pouco habitadas, para alguns dos distritos mais dinâmicos e populosos da cidade de São Paulo.

Até 1935, Santo Amaro era um município independente de São Paulo e constituía um núcleo urbano rodeado por áreas verdes. Em seu entorno, existia um extenso “cinturão rural”, paisagem muito distinta da que hoje se observa no local. Do Campo Limpo à Cidade Dutra, do Capão Redondo ao Grajaú, não havia ainda traços significativos de adensamento e urbanização.

Esse cinturão rural formava uma agradável área de lazer aos fins de semana. Os rios e as matas eram atrativos para a caça e a pesca. Havia chácaras e pequenas propriedades espalhadas por toda a região. Produzia-se batata, marmelada, farinha de mandioca e outros alimentos consumidos nos municípios de Santo Amaro e São Paulo. A área rural também era fonte de madeira, pedras e outros materiais de construção para os dois núcleos urbanos, que estavam em rápida expansão no início do século 20.

A Igreja de São Sebastião do Bororé representa muito bem este passado pacato e rural da região. Localizada em uma estreita península na represa Billings, no interior da Área de Proteção Ambiental de Bororé-Colônia, a igreja ainda preserva os traços de sua origem popular. Trata-se de uma pequena e simpática capela construída no ano de 1904. A simplicidade da construção, com suas linhas ecléticas e elementos neo-góticos,  de alvenaria de tijolos, se deve ao estilo de vida rural e despojado das poucas famílias que então habitavam o local.

Igreja de São Sebastião do Bororé/Fabio Donadio, 2013/Acervo do Departamento do Patrimônio Histórico

A construção das represas Guarapiranga (1906-1909) e Billings (1925-1927) ajudou a mudar o perfil de ocupação da região. Os reservatórios foram projetados com a finalidade de gerar energia elétrica para a cidade de São Paulo. O represamento da água teve, no entanto, um grande impacto na ocupação do território. As represas se tornaram verdadeiros balneários urbanos, cercados por clubes, pesqueiros e outros espaços de lazer. Logo a região se tornou atrativa para os setores mais abastados da sociedade.

Balsa do Bororé/Waldemir Gomes de Lima, 1936/Museu da Cidade de São Paulo

O bairro de Interlagos, como o seu próprio nome sugere, foi construído entre as represas Billings e Guarapiranga como um empreendimento imobiliário de alto padrão. Louis Romero Sanson, presidente da empresa Autoestradas S/A, adquiriu terras no local por volta do ano de 1937 e o traçado do bairro foi concebido pelo urbanista francês Alfred Agache.

Av. Interlagos/Ivo Justino, 1968-1970/Museu da Cidade de São Paulo

Interlagos foi projetado como uma “cidade-jardim”, com lotes amplos, ruas bem arborizadas e áreas planejadas para moradia, serviços e lazer. O autódromo foi construído como mais um atrativo para a venda dos lotes residenciais.

Para facilitar o acesso e estimular a ocupação da região, a Autoestradas S/A construiu a avenida Interlagos e a ponte sobre o rio Jurubatuba. Apesar de todos os esforços, o empreendimento imobiliário de Interlagos não rendeu os frutos esperados. Eram poucas as famílias que dispunham de interesse e de meios de transporte próprios para se dirigir a esta parte da cidade. As novas vias serviram, de toda forma, como eixos de ocupação para novos empreendimentos e loteamentos nas décadas seguintes.

Um dos mais importantes clubes recreativos a se instalar na margem direita da represa Guarapiranga, em idos de 1960, foi o Santapaula Iate Clube. O projeto original, que incluía um grande hotel, foi adaptado pelos arquitetos Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi, que projetaram a área das piscinas, de lazer e uma garagem de barcos. Em face da ampla utilização do concreto armado e da arrojada concepção estrutural e arquitetônica, a garagem de barcos do Santapaula Iate Clube é considerado um marco da arquitetura moderna em sua vertente brutalista. Com o encerramento das atividades do clube no início dos anos 1980, o imóvel permanece sem uso até os dias de hoje.

Garagem de barcos do Santapaula Iate Clube/Autor desconhecido, 1961-1970/Acervo da Biblioteca da FAUUSP

A formação de novas estradas, o aumento na circulação dos ônibus e a popularização do automóvel contribuíram bastante para o rápido crescimento populacional nesses “bairros dormitórios”, no entorno de Santo Amaro. Com o impressionante crescimento populacional, as áreas periféricas eram cada vez mais visadas pela população mais pobre da cidade. A partir das décadas de 1950 e 1960, a região sul passou por um intenso processo de ocupação, com o desmembramento de antigos sítios e chácaras.

O Campo Limpo, por exemplo, era um humilde arrabalde da cidade de são Paulo, ocupado por colônias de imigrantes japoneses e italianos. Posteriormente abrigou um grande contingente de nordestinos, contribuindo para o adensamento da cidade. Os serviços de infraestrutura urbana vieram aos poucos. Segundo dados da Prefeitura Regional de Campo Limpo, o primeiro ônibus circulou no local em 1963, a energia elétrica chegou em 1958 e o calçamento das ruas foi feito em 1968.

Diversas vilas começaram a surgir na zona sul, com moradias de operários que chegavam de vários estados e do interior paulista para trabalhar em São Paulo e no polo industrial de Santo Amaro. Com o passar do tempo, a ocupação das áreas no entorno do centro urbano de Santo Amaro tornou-se cada vez mais desordenada e muitos loteamentos avançaram sobre as áreas de preservação ambiental.

Os arruamentos penetraram em áreas suscetíveis à erosão, enchentes e, de modo geral, inadequadas à urbanização. Com a falta de recursos, um grande número de famílias construiu as suas casas em lotes irregulares, o que pode ser observado no Grajaú e nos bairros do extremo sul, como também nos diversos bairros do distrito de M’Boi Mirim, a oeste de Santo Amaro, uma região marcada por suas inúmeras favelas.

Paraisópolis/André Labate Rosso, 2004/Museu da Cidade de São Paulo

A ocupação de Paraisópolis, onde se estima que vivam mais de 80 mil pessoas, retrata bem as rápidas transformações ocorridas nesta parte da cidade. O bairro teria surgido após o loteamento de uma antiga área rural. Suas terras passaram então a ser ocupadas por migrantes e trabalhadores pobres, que vinham tentar a sorte em São Paulo. Em poucas décadas, a paisagem se transformou radicalmente.

Sul 5 – Grajaú, Cidade Dutra, Socorro, Jardim São Luís, Jardim Ângela, Capão Redondo e Campo Limpo